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O Peso da Incredulidade

 A sede é constante, seca por dentro como se não houvesse mais corpo. A fome tira o pouco de energia que ainda resta. Estou fraca. A única coisa que me mantém alerta é o pensamento de que talvez alguém esteja me procurando. Passos. Uma voz conhecida. — Você é mais resistente do que eu imaginava — diz Martha, parada diante de mim como se tudo fosse perfeitamente normal. — Não vim antes para não levantar suspeitas. Mas agora é hora de mudar de lugar. Aqui já não serve mais. Ela sorri. Mas não é um sorriso gentil. É vazio, frio, como quem já desistiu de fingir qualquer humanidade. — Joe... — penso. Se ele estiver me procurando, por favor, não pare. — Criança intrometida. Você acha mesmo que eu ia deixar você ter a vida que me foi negada? — Eu não te fiz mal — respondo, mesmo com dificuldade. — Me solta. Você ainda pode sair dessa. — Sair dessa? — Ela ri, amarga. — Você tem tudo agora. Gente do seu lado. Uma família. E eu? Fiquei com nada. O que estou fazendo é o que você merece...

Pânico

  Estou fora de mim. Lys desapareceu no meio da festa — sumiu sem deixar rastros. O celular ficou na bolsa, o que só piora tudo. Ben e Madeline ligaram imediatamente para a polícia. A preocupação no olhar deles já passou do limite. Sinto como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés. A cada minuto, a angústia me corrói. Liguei para todo mundo que conhecemos. Nada. Ninguém a viu. Todos estão procurando, mas não há pista, não há sinal, não há sentido. Quem faria isso com ela? Por quê? A cabeça gira. O peito aperta tanto que acho que vou desmaiar. É como se o mundo estivesse ruindo em volta de mim — e eu só consigo repetir: "Ela precisa voltar. Ela tem que voltar." VINTE E QUATRO HORAS DEPOIS A notícia explode na TV: “Lily Davison O'Donnell está desaparecida.” O nome dela no noticiário faz tudo parecer mais cruel, mais real. Um pesadelo filmado ao vivo. Mesmo com toda a mobilização, nada, nenhuma pista. O silêncio é ensurdecedor. — Joe, querido… vá descansar um...

Três meses depois

 Família, para quem nunca teve uma, é um tesouro que não se pode descrever. Agora eu tenho primas, um tio que insiste em aparecer sempre que pode, e até uma sobrinha encantadora. Descobri que meu tio é realmente muito rico — Joe e eu quase nos perdemos no jardim da casa dele — mas, para minha surpresa, ele é uma das pessoas mais humildes e generosas que já conheci. Isso me fez imaginar como seria minha mãe… talvez tão doce quanto ele. Minha tia Madeline é simplesmente deslumbrante. Sua pele negra parece reluzir como porcelana viva, e sua elegância faz parecer que saiu de uma capa de revista. Ela é artista, fotógrafa e pintora. E, além de tudo, é divertida. Os meus primos me acolheram com carinho. Pela primeira vez, senti o que é estar cercada por afeto genuíno, sem pressa, sem julgamentos. Só… presença. — Que bom que você veio! — disse Madeline, sorrindo. — Imagine o tédio dessas festas sem você. Meus filhos se recusam a aparecer, e como esposa fiel, eu acompanho meu marido. Mas ...

A Luz do Dia Está Próximo

  Sabe quando você carrega sacolas demais, por um caminho longo, e os dedos ardem, os ombros reclamam, e por um momento você pensa que não vai conseguir dar mais um passo? E então, alguém aparece e te ajuda — e o alívio é tão imediato, tão inesperado, que você sente que pode correr quilômetros só por ter deixado um peso para trás. Foi assim que me senti depois de contar a Joe sobre meu tio. Eu o encontrei — ou ele me encontrou, não sei ao certo. Disse que não sabia para onde havíamos nos mudado. Estava em Oxford quando minha mãe se casou, e quando voltou, ela já havia desaparecido do mapa. Os pais dela, meus avós, nunca deram notícia. Ele só soube que ela tinha uma filha agora, comigo. Disse que ficou confuso quando contei que descobri sobre ele por uma carta. Ele não lembrava de tê-la enviado. E eu, covarde, não consegui contar que mamãe tinha morrido. Hoje é o dia do nosso encontro. Joe segura minha mão com força. Talvez ele perceba o quanto estou nervosa — ou talvez eu só est...

Tudo é Possivel

 Deixo Lys em casa com certa relutância. Nossa noite foi inesquecível. Descobri que sim, é possível se apaixonar mais de uma vez pela mesma pessoa — porque é exatamente o que está acontecendo comigo. Ela também não queria que acabasse, dava pra sentir. Ficamos no carro por mais quinze minutos, tentando segurar o tempo com as mãos antes de voltar à realidade. Ao chegar na casa dos meus avós, eles já estavam acordados. Cumprimentei minha avó com um beijo carinhoso e meu avô com um sorriso cúmplice — que retribuíram com aquele olhar de quem sabe mais do que diz. Fingi não perceber e subi. Meu celular estava sobre a cama quando vibrou. E claro, era quem eu imaginava. Lys: É cafona dizer que estou com saudades? Joe: Me diz você... porque eu estou. ♥ Lys: Somos um casal cafona? Eu não me importo. Sinto sua falta, mas preciso trabalhar. Joe: Eu também. Amo você. Lys: Eu amo mais... Joe: Veremos... Lys: ;-) Fico ali, encarando a tela, esperando uma resposta que não vem. Ao...

Estou no céu

 Eu chamaria isso de incrível... Não, é mais do que isso. É surreal. Ele fez tudo isso... para mim. Ainda não consigo acreditar. Cada detalhe carrega um cuidado que me deixa sem chão. As velas, o ambiente, a escolha do lugar — como se ele tivesse entrado no meu coração e perguntado em silêncio: “O que faria Lily se sentir amada hoje?” Ele me observa com expectativa, como quem não aguenta mais o suspense. E eu? Continuo muda, boquiaberta. Quando, em toda minha vida, alguém fez um jantar para mim? Talvez uma vez — Karen, com aquele jeito desajeitado e doce. Mas alguém que pensou em mim desse jeito? Que me viu por inteira ao planejar um momento? Sinto como se corresse o risco de me apaixonar sem volta. E o mais curioso é que não parece um risco — parece destino. Joe mexe no cabelo, visivelmente nervoso, e enfia a outra mão no bolso. Seu olhar carrega uma doçura infantil. — Gostou? — pergunta, meio inseguro. Apenas balanço a cabeça devagar, ainda sem conseguir falar. Ele sorri co...

Posso até não conseguir, mas posso tentar

Um jantar. Foi isso que planejei — simples, mas cheio de significado. À luz da lua e cercado por velas. Descobri um daqueles lugares escondidos dessa cidade que parece viver em outro tempo. O que mais me encantou aqui foram os detalhes — janelas antigas, galhos que se curvam ao vento, o aroma de flor com terra molhada. Escolhi esse cenário para nossa noite. Enquanto arrumo a toalha com mãos trêmulas e verifico pela terceira vez as velas, percebo o quanto estou inquieto. Há um nó no peito que só ela consegue provocar. Lys não é qualquer mulher. Ela transforma o que é comum em extraordinário. Quando sorri, o mundo desacelera. Quando olha, parece enxergar além. Admiro o jeito como morde o lábio distraída, como franze o nariz em dúvida, como não tenta esconder quando está me observando. Apenas observa, como se isso fosse, por si só, uma forma de tocar. Gosto dela por inteiro — do que mostra e do que guarda. Faz um mês e quinze dias desde que começamos. Parece pouco, mas foi o suficient...